Para
contrariar objetivamente as ideias do colunista, no artigo publicado no passado
dia 28 de maio, podemos estruturar uma resposta incisiva focada na discrepância
entre a teoria económica e a realidade operacional e sociológica das escolas
em alguns pontos muito concretos.
1º. O Paradoxo da Escassez vs.
Suposto Privilégio.
O artigo
defende que a carreira pública é altamente atrativa devido à estabilidade e
remuneração. Contudo, se os incentivos fossem tão elevados como o autor
sugere, não haveria uma falta crónica de professores em Portugal e na Europa.
A "preferência revelada" de milhares de jovens licenciados é, hoje, o
abandono ou a rejeição da profissão, o que demonstra que o "valor
económico" da segurança no emprego já não compensa o desgaste das
condições de trabalho, das deslocações de dezenas ou centenas de quilómetros e
do elevado custo da habitação, sobretudo nas zonas mais carenciadas de docentes.
A falta de professores e educadores e a “fuga de talentos” tem um custo social
real para as famílias e para os alunos, provando que a luta por melhores
condições não é apenas uma busca por benefícios, mas uma necessidade para
garantir a própria existência e qualidade da escola pública. A falta de
candidatos à entrada na profissão mostra que a remuneração de entrada e a
progressão lenta na carreira não são competitivas perante o "risco" e
a pressão das escolas atuais.
No que toca à
estabilidade, frequentemente apontada como o derradeiro “privilégio” do setor
público, urge desconstruir a visão simplista que ignora o custo real desta
segurança. Se a garantia de emprego fosse, por si só, o incentivo determinante
que o autor sugere, não estaríamos perante uma escassez crónica de
professores. A verdadeira “preferência
revelada” pelas novas gerações não é a da segurança a qualquer custo, mas sim a
do abandono ou rejeição da carreira. De que serve a “estabilidade absoluta” se ela
vier acompanhada de um desterro geográfico constante, custos de habitação
incomportáveis — sobretudo no sul do país — e uma profissão que se tornou
psicologicamente insustentável? A estabilidade num sistema que não valoriza os
seus agentes e que permite a degradação das condições de ensino é, como refere
o texto, apenas a “estabilidade de um sistema vazio”. No atual mercado de
trabalho, a segurança no emprego já não compensa o desgaste operacional e a
desvalorização social, provando que a estabilidade não é um privilégio, mas
sim uma âncora insuficiente para um sistema em erosão.
2º. As Condições de Trabalho e
Desresponsabilização Social.
O autor
foca-se em trade-offs salariais e riscos laborais, mas ignora a deterioração
do ambiente escolar. O texto do ECO não contabiliza o
"custo" da indisciplina crescente. O professor já não é apenas
um educador, mas um gestor de conflitos num cenário de crescente
desresponsabilização das famílias. Para além da degradação das condições de
trabalho, é fundamental denunciar a burocracia asfixiante que hoje
sequestra o quotidiano escolar. O Estatuto da Carreira Docente é
sistematicamente sobreposto por uma proliferação de tarefas administrativas,
plataformas digitais redundantes e relatórios meramente formais que retiram
tempo crucial à qualidade pedagógica e ao acompanhamento individualizado dos
alunos.
Sob uma ótica
económica, que o autor do artigo pretende privilegiar, isto representa uma
gritante ineficiência na gestão de capital humano. Ao obrigar recursos
altamente qualificados e especializados — os professores e educadores — a
consumir uma parte significativa da sua jornada em funções de secretariado, o
Estado está a desperdiçar talento e a desvalorizar o investimento estratégico
na educação. Esta pressão burocrática torna a profissão psicologicamente
insustentável, provando que a “estabilidade” oferecida pelo setor público é uma
ilusão quando o ambiente de trabalho impede o exercício pleno da missão de
ensinar.
3º. A Falácia da Comparação com o
Setor Privado.
O artigo
argumenta que os professores querem a segurança do público com os salários do
privado competitivo. No entanto, omite que a responsabilidade social de
garantir o direito à educação a todos os cidadãos não tem paralelo no setor
privado. A escola pública não pode "selecionar clientes" ou
"fechar por falta de lucro"; ela absorve as falhas de toda a
estrutura social, incluindo a, já mencionada, negligência parental.
4º. A Gestão de Recursos: Uma
Questão de Opção Política
Contra o
argumento de que os recursos são "escassos" e que os professores são
um "grupo de pressão" que captura benefícios, pode-se contrapor que o
Estado encontra frequentemente recursos para outros setores, como a banca, infraestruturas
e diversos investimentos de retorno duvidoso ou capturados em parte pelas
derrapagens e, em muitos casos, pela corrupção. A despesa com professores e
educadores deve ser vista como um investimento estratégico e não apenas como
um custo corrente sujeito a métricas de produtividade industrial. O
investimento na escola pública tem um efeito multiplicador na coesão social e
na preparação da força de trabalho futura, algo que uma análise
"contabilística fria" tende a ignorar
5º. A Opinião Pública e o Valor
da Escola
Enquanto o
autor do texto alerta para a erosão da simpatia pública devido às greves,
esquece-se que a verdadeira erosão ocorre na qualidade do ensino quando
as turmas ficam meses sem aulas por falta de docentes. A luta sindical,
por vezes criticada como "conveniente", é, na ótica da classe e de
uma significativa parte dos portugueses, a única barreira contra o colapso
total de uma carreira que deixou de ser competitiva e atrativa no mercado de
trabalho atual. A "paz social" e a qualidade do ensino são os
verdadeiros ativos que estão a ser erodidos
Em suma, a
análise publicada no ECO reduz a profissão docente a um balanço contabilístico
frio e desfasado, ignorando que a “estabilidade absoluta” de nada serve quando
a carreira se torna psicologicamente insustentável e socialmente desvalorizada.
A verdadeira “ilusão” não pertence aos professores e educadores, mas sim a quem
acredita que modelos económicos teóricos podem ignorar o paradoxo da escassez:
se as condições fossem de facto um “privilégio”, as escolas não estariam
mergulhadas numa falta crónica de profissionais.
Tratar a
exigência de dignidade como uma “inconsistência de expectativas” revela uma
incompreensão profunda da realidade escolar. Sem professores valorizados e
motivados, a estabilidade de que o colunista tanto fala será apenas a
estabilidade de um sistema vazio e sem futuro. A despesa com a educação não
pode continuar a ser vista como um custo corrente, mas como o investimento
estratégico mais vital do país.

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